Páginas

terça-feira, 12 de junho de 2012

Em 8 horas de depoimento, Perillo nega relações com Cachoeira

O governador de Goiás depôs nesta terça-feira na CPI do Cachoeira. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
O governador de Goiás depôs nesta terça-feira na CPI do Cachoeira
Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

ELAINE LINA

Direto de Brasília
O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), afirmou nesta terça-feira, em um depoimento de mais de oito horas na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista do Cachoeira, que não manteve relações "de proximidade" com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e que a venda da sua casa - onde o bicheiro foi preso - foi feita de forma legal. Perillo também negou conhecer a amizade entre Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) quando indicou o político à Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás, em 1999.
O governador afirmou ser "vítima de uma grande injustiça, originada por ataques odiosos e sem limites, que se manifestam ora de forma velada, mas dura; ora de forma pública, sutil, mas sorrateira". Assistido por seu advogado, Perillo falava na condição de testemunha. Era grande a presença de parlamentares na sala da CPI, com alguns deputados acompanhando a reunião de pé.
Depois de falar initerruptamente por mais de uma hora assim que chegou à sessão - quando aproveitou para fazer propaganda do Estado que governa e de sua gestão -, o governador respondeu, no início da tarde, perguntas dos membros da comissão. Foram mais de 20 inscritos para interrogar o tucano.
Relações com Cachoeira
Ao iniciar seu depoimento, Perillo disse ser "vítima dos acontecimentos deflagrados pela Operação Monte Carlo, por fatos distorcidos" e prometendo "a verdade dos fatos". "Desde o início me ofereci para depor nesta CPI", lembrou. Aos integrantes da comissão, Perillo sustentou que há apenas uma ligação sua a Carlinhos Cachoeira, registrada pela Polícia Federal, para parabenizá-lo pelo seu aniversário.
Na ocasião da ligação ao bicheiro, o governador afirmou que é público em Goiás que ele liga para pessoas influentes na sociedade nos aniversários. Perillo disse que telefonou para um Cachoeira não contraventor, e sim "empresário que atuava no setor de produção de medicamentos".
O tucano se esforçou para mostrar que não havia influência do bicheiro em nomeações no seu governo. Disse que dos 160 mil funcionários públicos goianos, apenas seis são citados como "protegidos da organização (de Cachoeira)".
Venda da casa
O governador de Goiás afirmou à CPI que não há contradições no processo de venda da sua casa, negócio que, segundo ele, foi feito "rigorosamente dentro da lei". Em sua fala aos membros da comissão, o tucano classificou de "absurda" a dedução de que teria recebido duas vezes pela venda do imóvel.
Perillo afirmou ter tido pressa em vender a casa, de 450 m², porque precisava de um lugar maior, como governador, para receber convidados. O imóvel, que conforme o tucano foi adquirido com um financiamento da Caixa Econômica Federal, foi anunciado nos classificados. "Se eu soubesse que a venda da casa geraria tanta confusão eu teria continuado a morar nela."
Segundo o governador, o ex-vereador de Goiânia Wladimir Garcez fez uma oferta pelo imóvel e, na hora da escritura, afirmou que não teria recursos para quitar a dívida, de R$ 1,4 milhão. Garcez, conforme Perillo, afirmou que repassaria o negócio ao empresário Walter Paulo Santiago - que é suspeito de atuar como "laranja" de Cachoeira -, e entregou três cheques pré-datados para março, abril e maio de 2011. O governador entregou à comissão as cópias dos cheques e seus extratos bancários desse período, quando a compensação foi registrada. E argumentou que se a houvesse algum tipo de irregularidade, não teria anunciado a casa no maior jornal de circulação do Estado.
Demóstenes
Parte do depoimento do governador pareceu divertir a comissão. Questionado por Pedro Taques (PDT-MT) se participava de jantares na casa do senador Demóstenes Torres, que responde a processo na Casa por suas relações com Cachoeira, Perillo descreveu as festas promovidas pelo ex-democrata.
"Sim, fui (à casa de Demóstenes). E encontrei vários outros senadores lá. Ele (Demóstenes) contratava uma bandinha, me lembro de ver até 30 parlamentares lá, e de todos os partidos", afirmou o governador. Ao ouvir risos, continuou a narrativa: "Todos cantando juntos. Alguns cantando melhor, outros, pior. Mas sempre cantando. E me parece que quem ia aos jantares, gostava muito."
Marconi Perillo também afirmou desconhecer a amizade entre Demóstenes e Cachoeira. O governador disse que jamais recebeu pleitos do senador relacionados às atividades do bicheiro. Questionado se o próprio Cachoeira pediu ajuda para os negócios ilícitos, Perillo foi enfático: "Nunca me foi feito qualquer pedido. nunca me foi levado qualquer aperto por parte dele". O governador também defendeu a atuação das policias de Goiás no combate aos jogos ilegais e contravenções em geral. A Operação Monte Carlo prendeu policiais civis e militares que colaboravam com o bicheiro. "Corporações estão sujeitas a esse tipo de cooptação. Isso não significa dizer que o alto comando da polícia estivesse envolvida nesse esquema."
Ex-chefe de gabinete
A operação da PF que prendeu Cachoeira também apontou que Eliane Pinheiro, ex-chefe de gabinete de Perillo, ajudava a organização criminosa. Ela telefonou para um dos suspeitos e avisou da operação policial. "Só tomei conhecimento desse telefonema depois da divulgação. Ela nunca me disse desse telefonema, eu jamais imaginava que pudesse ter acontecido", disse Perillo.
Eliane usava um telefone Nextel que teria sido fornecido pelo próprio Cachoeira, fato que o governador também disse desconhecer. "Esses chamados radinhos eram distribuídos a várias pessoas. Ela nunca me disse que teve esse tipo de radinho."
Mensalão
Aos parlamentares da CPI, Perillo se queixou da repercussão política de uma declaração dada por ele quando o mensalão do PT ganhou publicidade, em 2005. Na época, Perillo afirmou, em entrevista, que havia avisado o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sobre o esquema de distribuição de propina. Desde então, é considerado desafeto pessoal do petista. "Eu nunca imaginava que um aviso pudesse trazer tantos problemas para mim, tanta perseguição", disse.
Perguntado pelo senador Pedro Taques (PDT-MT), Perillo comentou os rumores de que as acusações que enfrenta na CPI seriam consequência do julgamento do mensalão. "Eu diria que muitas pessoas ligadas a alguns seguimentos que fazem oposição a mim talvez tentem usar essa CPI para me atacar."
Carlinhos Cachoeira 
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.
Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram contatos entre Cachoeira e o senador democrata Demóstenes Torres (GO). Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais.
Nos dias seguintes, reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmaram, respectivamente, que o grupo de Cachoeira forneceu telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, e que o senador pediu ao empresário que lhe emprestasse R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo. Na conversa, o democrata ainda vazou informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes.
Pressionado, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado em 27 de março. No dia seguinte, o Psol representou contra o parlamentar no Conselho de Ética e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski autorizou a quebra de seu sigilo bancário.
O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido havia decidido abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda, encerrando a investigação interna. Mas as denúncias só aumentaram e começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas.
Após a publicação de suspeitas de que a construtora Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, faça parte do esquema de Cachoeira, a empresa anunciou a demissão de um funcionário e uma auditoria. O vazamento das conversas apontam encontros de Cachoeira também com os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 19 de abril, o Congresso criou a CPI mista do Cachoeira.

Terra Noticias